Obrigado, Fofão!



Infelizmente, tivemos que dizer adeus à estrela mais brilhante e, ao mesmo tempo, mais discreta das quadras brasileiras. Fofão despediu-se das quadras e, junto com ela, despede-se parte importantíssima da história do vôlei feminino nacional.

Fofão era a única representante ainda em quadra daquele grupo de jogadoras que começou a transformar o Brasil em uma verdadeira potência do vôlei mundial no início dos anos 90. E ela foi a única jogadora que esteve no início e no auge desta trajetória vitoriosa brasileira, com a conquista da medalha de ouro olímpica em 2008.

Em Pequim, Fofão representava Ana Moser, Virna, Venturini, Leila, Márcia Fu e outros nomes que colocaram o Brasil no cenário internacional do vôlei. Neste domingo, a despedida da levantadora foi também a desta era.

Fofão leva consigo parte essencial da história do vôlei feminino brasileiro, portanto. Uma parte da história que a mim, particularmente, é muito especial. Foi lá pelos anos 90 que comecei a acompanhar o vôlei feminino. Por isso, não é fácil dizer adeus ao que restava de vivo desta história.

Ainda bem que foi ela, desta geração dos anos 90, que permaneceu durante todo este tempo na ativa, podendo influenciar positivamente as gerações que vieram a seguir. Fofão foi um exemplo de que é possível ser craque e ser humilde. Ser um diferencial e ser agregadora de grupo. Ser líder e ser discreta. Ser exemplo e ser aprendiz. 


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A saída da Fofão faz-nos, inevitavelmente, fechar uma porta e encarar a realidade e o futuro do vôlei brasileiro. Acho que o vôlei fica órfão. Não se perde somente uma jogadora talentosa, mas uma referência em comportamento e liderança.

Fofão é um espécime raro no esporte, assim como a Ana Moser. Pessoas que podem dar exemplo pela qualidade do seu trabalho, mas também - e principalmente - pela sua postura. São atletas, portanto. Pessoas que inspiram e ensinam através de gerações e que transcendem as quadras.

Que jogadoras temos, atualmente, que aliem currículo, talento e perfil que sirvam de exemplo para as gerações mais novas? Que jogadoras podem ser referência naturais, como são Fofão e Ana Moser, sem a forçação de barra de assessorias de imprensa e de marketing? Que jogadoras teriam o prestígio de reunir tantos colegas e ex-colegas na sua despedida e ser parte especial da carreira de todos eles? 


Acho que, por enquanto, o vôlei feminino brasileiro fica sem guia. 


Tomara que a Fofão, ao menos, continue trabalhando com o vôlei, ajudando a manter no topo o esporte que ela colaborou a alavancar.

Comentários

Laura, acompanho vôlei feminino desde os anos 80. Vi muitas jogadoras brasileiras em quadra. Muitas atingiram o sucesso, outras apenas compunham grupos (clubes, seleção). Amei algumas, não me simpatizei com outras. Já a Fofão realmente é um ícone por tudo que ela foi, é e sempre será, tanto como atleta como pessoa. Impossível imaginar uma jogadora que, tanto tempo na reserva e sem manifestar palavras negativas por isso, chegar onde ela chegou: medalhista olímpica, querida pelas colegas e pelos dois treinadores mais vitoriosos do Brasil. Assisti ao jogo de despedida dela hoje com saudosismo e feliz por ver algumas jogadoras que gosto tanto. Também achei estranho por não ver o Bernardinho e outras jogadoras também. No mais, um FIM em uma obra prima chamada Fofão.
Nei disse…
Wilson, creio que o Bernardinho deva está muito envolvido no momento com o treinamento da Liga Mundial com um grupo tão grande, ou, não deve ter ficado satisfeito pelo fato da Venturini não ter sido mencionada ou convidada nem ter tido nenhuma homenagem em sua despedida. Eu gostei de ver a Mari lá e a Fabizinha de ponteira; adorei isso.
Me lembro na década de 90 Ana Moser era a bola de segurança do Time, e a única q conseguia furar o bloqueio intransponível da Rússia sem depender da sorte.
Paulo Roberto disse…
O Brasil e Cuba de 96 me fez um apaixonado pelo volei e me lembro que a primeira referência que ouvi sobre Fofão foi quando ela entrou no quarto set daquele jogo, mesmo que pra fazer fundo de quadra, já que a Venturini não saiu. Depois ela entrou na disputa pelo bronze e me lembro do Galvão falar eu tô gostando mais do time com a Fofão. Fiquei me perguntando quem seria essa Fofão. Hoje o sentimento que tenho foi traduzido no post da Laura: aquela geração chegou ao fim. Com a despedida de Fofão nos despedimos definitivamente da geração que pode ser considerada a mais talentosa que tivemos. Como disse num outro post me sinto órfão porque quando jogava era levantador e me inspirei na Fofão e no Maurício.

O que esperar do vôlei agora? Quem le meus comentários anteriores sabe que não sou muito otimista, mas com ausência de uma figura como Fofão não crio expectativas muito positivas. Espero estar enganado.
Eduardo Araujo disse…
Oi gente não tem nada haver com o tópico, mas achei interessante a declaração da Fabizona e resolvi compartilhar com vocês.

“Me causa preocupação a crise que se abateu sobre o vôlei brasileiro. Estamos a um ano dos Jogos, somos o esporte mais procurado, sempre com medalhas e vários atletas desempregados dá o alerta para o problema. As razões são inúmeras, desde a crise econômica, a negociação de contratos de TV, falta de visibilidade dos patrocinadores, ranking… A Superliga está mudando, mas queremos o melhor e o vôlei precisa se estruturar mais para que não se perca o legado e o lugar no coração do país”.

Vai de encontro aquilo que estamos falando a algum tempo.

Essa declaração foi tirada do site do Daniel, segue o link:

http://blogs.lancenet.com.br/volei/
Nei disse…
Eduardo, eu acho os atletas do vôlei muito moles e apolíticos, incapazes de se unirem enquanto classe para lutar por seus direitos. Eles ficam mais em discursos individuais e não tomam iniciativas. Eles têm um grande poder nas mãos. Poderiam fazer greves, especialmente na seleção e boicotar tudo até que suas exigências sejam atendidas. Pressionar a CBV. Fazer com que a CBV peça o afastamento do Ary na FIVB por conduta ilícita. O cara tá solto e nada foi a ele, não cumpriram as exigências do BB, que retirou o patrocínio de novo.
Não adianta chorar. Têm que se organizar como grupo e lutar por direitos. Boicotar as seleções, já que a Superliga é mais difícil, pois são os clubes que pagam os salários. Os jogadores nem sequer têm uma associação com local físico, escritório, com algum ex-jogador presidindo e gerenciando o interesse dos jogadores. Se não me engano eles ficam conversando por whatsapp e facebook. Todos muito parados.
Paulo Roberto disse…
Concordo Nei.

A impressão que dá é que eles reclamam, reclamam, mas não fazem nada de concreto. O Gustavo até tentou se mobilizar ano passado, salvo engano, mas não foi além de protestos em redes sociais. Eles não se conscientizaram de que são dos donos do jogo. Ficam sempre nessa apatia. Quando o Renan entrou pra CBV eu pensava que alguma iria mudar, mas continua a mesma coisa e a tendência é só de piora.

Fico triste porque sou um amante do voleibol, e fico triste principalmente porque o esporte tem perdido seu poder transformador, ou melhor os gestores não querem enxergá-lo assim.
Nei disse…
É isso mesmo, Paulo. Tudo como você colocou. É o estilo brasileiro de gerir. Corrupto e com todos querendo apenas mamar nas tetas do governo, sem trabalhar e garantindo seus mandatos por quanto tempo for possível, fazendo alianças, favorecendo amigos e familiares. Como você disse, daí para pior. Só uma revolução dos atletas mudaria algo. Criar uma outra confederação e ignorando esta. Gustavo tentou, mas tudo muito timidamente. Eles têm o poder, mas não o usam. Não temos o que fazer além de lamentar. Pena.