País de Um Esporte Só


Em 1994 havia uma revista de vôlei chamada Supervolley. Não sei ao certo quanto tempo durou, mas não foi muito. Se bobear, deve ter sido a publicação sobre vôlei que mais durou no mercado.

Não é nenhuma novidade que revistas especializadas no vôlei não consigam se sustentar por muito tempo. Assim como não é novidade que a cada ano equipes apareçam e sumam, com patrocinadores investindo e desistindo do esporte. Não é novidade, também, que a cobertura da mídia seja escassa e que o interesse do torcedor seja fiel somente ao futebol.

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Dizendo isso até parece que estamos falando do rúgbi. Esporte sem tradição no Brasil, sem conquistas. Mas não. O vôlei é o esporte mais bem sucedido deste país – mais até que o futebol. Com estrutura, coloca todas as suas categorias no pódio freqüentemente.
 
Não é estranho? É a imprensa ou é o brasileiro que só tem uma cultura esportiva: o futebol? Ou são os dois?

A cada Olimpíadas ouvimos aquele mesmo papo de que uma medalha ajuda a despertar interesse pelo esporte e atrair público. É verdade que os Jogos ajudam a atrair mais patrocínio, trazer mais pessoas aos ginásios. Mas se a cada Olimpíadas falamos sempre no assunto, é porque o efeito pós-olímpico não dura muito tempo.

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As empresas patrocinadoras querem visibilidade. Se a TV não transmite, não noticia ou não fala o nome da marca (como no caso de Rexona e Finasa, conhecidos pela linguagem “Global” como Rio de Janeiro e Osasco), não há porque financiar o esporte.

O torcedor empolga-se ao acompanhar os Jogos. Mas qual percentual deles torna-se fiel a outro esporte que não seja o futebol masculino? Quantos têm interesse em assistir a um jogo de vôlei ou handebol pelo campeonato brasileiro?

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No caso do vôlei, o canal a cabo Sportv é o responsável pela transmissão da Superliga e de outros torneios. Mas ao mesmo tempo possui três programas diários de debate em que 95% do assunto gira em torno, é claro, do futebol. Os jornalistas participantes só “entendem” de futebol, os convidados são do futebol. Raramente aparece um atleta ou um comentarista de outro esporte.

Jogos da Superliga transmitidos por canais da TV aberta são raridade. A Globo - que se diz tão apoiadora do esporte brasileiro - transmite os jogos finais e ainda os condiciona ao horário absurdo das 10h da manhã. Mas a maior hipocrisia é nem noticiar os resultados da Superliga durante seus programas esportivos. Ficamos sabendo até do resultado da rodada do futebol ucraniano, mas sequer sabemos como foram os jogos do campeonato brasileiro de vôlei. Se um futebolista brasileiro que joga no Uzbequistão cobrou um lateral que depois de 15 passes foi gol, nós vemos o lance.

O principal jornal do meu estado (RS) só noticia algo sobre outros esportes se há algum atleta ou equipe gaúcha envolvidos. Desta forma, eu tenho informações sobre a Ulbra na Superliga masculina, mas da feminina, se depender do jornal, não sei nada. Claro que sou muito bem informada sobre os times finalistas da NBA. E tenho a oportunidade de ler três colunas falando sobre o mesmo assunto: sim, o futebol!

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É o público que só quer saber de futebol? Ou a imprensa define o interesse? Dizem que o público reclama quando não há muita informação sobre futebol na mídia. Não duvido. É só isso com que o brasileiro está acostumado, envolvido. Não gostar de futebol é exceção. Mas gostar de outros esportes é uma opção.
 
Não espero que o vôlei ou qualquer outro esporte tenha a mesma repercussão e alcance do futebol. Nem tem como. Maior acesso a informação já seria ótimo. Saber o que acontece com os atletas quando não estão na seleção, o que acontece neste intervalo entre uma Olimpíadas e outra. Até a Stock Car - na qual compete o filho de um global, Cacá Bueno - recebe mais espaço que o vôlei.

Se o Galvão Bueno tivesse uma dezena de filhos espalhados por diversas modalidades, podem ter certeza que, aí sim, seríamos muito bem informados.

Comentários

Che Guevara disse…
Concordo. É muito estranho o vôlei ser o 2º esporte nacional e ter menos espaço que o basquete - americano! Isso pra mim é um baita macaquismo: ficar botando notícia de NBA.
Anônimo disse…
Sinceramente, não vejo nenhuma saída para mudar o "status quo". O futebol vai continuar lá na frente e os "outros esportes" vão ficar se acotovelando por um lugar ao sol do mesmo jeito...Felizmente a CBV é bem organizada, já a galera do basquete pena com a CBB...
Welmer disse…
Nesse período que não tem muito o que se comentar sobre voleibol feminino, aproveitei pra ler alguns de seus posts antigos, Laura.

E esse me chamou muita atenção.

Assim como você, também me faço as mesmas perguntas. Pô, será que o público brasileiro só se interessa por futebol ou será que a imprensa o condiciona a isso??? Eu não sei, mas eu gostaria muito que essa cultura brasileira mudasse.

Hoje todos os canais fechados (ESPN, Sportv e Bandsports) do Brasil tem sua grade de programação dominada pelo futebol, e recentemente chegou mais um canal (Fox Sports) e qual seu principal produto??? O futebol, é claro. Eu entendo, é um esporte que gosto muito, que chama muita audiência e que traz muito dinheiro, mas me irrita como esses canais enchem sua grade com o futebol, transmitem tudo que é campeonato, é capaz de eu ver qualquer dia desses eles transmitindo o campeonato de rua daqui do meu bairro ou então o campeonato vietnamita da categoria fraldinha.

Eu vejo os programas desses canais o assunto é sempre futebol, os participantes são sempre do meio do futebol, aí, se tem alguma coisa de outro esporte, só dão uma nota, pra não passar em branco.

Uma coisa que irritou recentemente foi o comentarista da ESPN, o Mauro Cezar Pereira, dizendo que não aceitava as diferentes formas que trataram a derrota o vôlei masculino e do futebol masculino, só porque o público meio que enalteceu a prata do vôlei e desmereceu a prata do futebol, já que para ele ambas foram um vexame, e eu discordo. Se ele não entende ou não gosta do esporte que fique calado e não fale besteira.

Falando do vôlei na tevê agora, eu queria muito que essas medalhas fizessem com que o esporte ganhasse mais espaço na mídia. Li notícias que a CBV recusou propostas da Record pra transmitir a Superliga, é até contraditório, mas eu acho que ela fez bem, pois pra mim o campeonato teria menos visibilidade do que tem hoje. Eu acho que a Globo tinha que transmitir pelo menos um jogo por semana seja da Superliga Masculina ou Feminina, e ela tem condições pra isso. Eu estava pensando aqui em horários que ela poderia encaixar a Superliga e eu acho que esse seria um bom horário: no lugar da temperatura máxima.

Laura, talvez você nem irá ler esse comentário, peço desculpas por ser tão extenso, mas gostaria de saber sua opinião sobre o horário que eu citei no qual acho que Globo poderia encaixar a Superliga.
Laura disse…
Oi, Welmer!

Sobre isso, escrevi uma vez este post tb, não sei se vc leu:
http://papodevolei.blogspot.com.br/2010/10/uma-verdade-desagradavel.html

Entendo q o futebol agrade a maioria e atraia audiência mais do q qq outro esporte. Mas tb sei que se a mídia quiser tornar uma modalidade popular, ela consegue. Ok, não ao ponto do futebol, mas pode virar pauta de jornais esportivos e de conversas entre amigos. Exemplo é a Stock Car e o MMA, que se tornaram "hits" pela cobertura da Globo.

Enfim, sobre o horário, me parece muito bom. Mas certamente não vale a pena para a Globo, q deve ter uma boa audiência e patrocínio naquela faixa de horário, e ainda sem os custos de fazer cobertura ao vivo e etc.

E uma outro observação. Me irrita tb q estes comentaristas de futebol deem pitacos sobre modalidades q nem acompanham.

Agora, te digo uma coisa: se esta derrota do vôlei tivesse acontecido com o feminino, não iria ter tanta complacência. Já te digo o q iríamos ouvir e ler dos comentaristas de Olimpíada: que foi um vexame, que amarelaram, que as mulheres não têm estrutura psicológica e etc. Quando no fim sabemos que tudo faz parte do jogo, do esporte.
Welmer disse…
Não havia lido, mas realmente é uma verdade bem desagradável!!!

Laura, eu acho que essa situação mudou um pouco hoje. Analisando a situação do futebol americano, esporte que também acompanho e que não tem um público nem de longe comparado ao do futebol, eu percebo que por ter um público específico, 'grande' e fiel fez com que a ESPN adquirisse exclusividade do produto em tevê fechada e transmitisse até 5 jogos por rodada do torneio, e hoje também o Esporte Interativo tem direitos de transmissão.

Então, acho que o vôlei tem condições de ter seu espaço na tevê aberta, mas acho como citado em um dos comentários do post, que se o vôlei tivesse a ajuda dos clubes de futebol como teve com o Vasco e o Flamengo no feminino que fizeram Final de Superliga e tem hoje com o time do Cruzeiro na Superliga masculina, acho que isso chamaria mais atenção da mídia.

Espero e torço muito para que essa situação do vôlei, num futuro bem próximo, seja diferente.