Os Treinadores e seus Cobertores Azuis


É bastante conhecido o personagem Linus, da turma do Charlie Brown. Inseparável de seu cobertor azul, é uma menino inseguro e um tanto melancólico. O que lhe transmite tranqüilidade e segurança é um pedaço de pano velho com um cheiro característico. Enquanto o resto da turma implica com sua ‘mania’, rouba-lhe o cobertor para lavá-lo, Linus não abre mão daquele objeto que é seu ‘porto-seguro’.




 Mas esse ‘apego’ a algo que lhe transmita segurança não é privilégio de personagens de HQ. O mundo dos esportes está cheio destes exemplos. Que digam os treinadores, principalmente os de esporte coletivo.
 
Há alguns anos – mais exatamente em 2005 – Mano Menezes era treinador do Grêmio. Disputando a segunda divisão, o grupo tricolor era composto por jogadores modestos e, salvo raras exceções, pouco talentosos. Mas dentre tanta mediocridade, um jogador conseguia se destacar por tamanha ruindade e inutilidade: Marcel. Não se sabia o quê exatamente ele fazia ali no time, qual era a sua função, etc. O que era evidente é que até jogando com 10 o time ganharia mais do que com a sua presença.

Apesar de tudo, ele era escalado jogo após jogo. E assim foi até a final da série B. Anos depois, quando Mano Menezes chegou ao Corinthians, uma das primeiras contratações sugeridas pelo técnico foi exatamente a de Marcel.

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Não adianta. Nisso treinadores megacampeões como Felipão e Bernardinho se assemelham a iniciantes sem prestígio: todos têm seus preferidos. Aqueles atletas que o torcedor e a imprensa não entendem a escolha, por quê foram convocados ou por quê são ainda titulares. Enquanto o resto do mundo vê melhores opções, o treinador defende até o fim a permanência de seu ‘preferido’.

Por quê? Porque esses atletas são os cobertores azuis dos técnicos. Eles confiam, sentem que são seus representantes na equipe, normalmente já os conhecem há um bom tempo. E, mais do que tudo, transmitem segurança ao treinador, sendo quase que fundamental a presença de tais atletas no grupo.

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Uma explicação mais aprofundada só um Contardo Calligari para nos dar. Mas talvez seja essa a resposta para a minha contestação – publicada nos primeiros post deste blog – sobre a escolha de Valeskinha. A justificativa da polivalência é só uma desculpa para incluí-la de volta ao grupo. Acima de qualquer questão técnica está a confiança que o Zé Roberto deposita nela. Talvez ele nem tenha consciência disso, mas na hora mais decisiva para seleção e crucial para ele, o Zé não conseguiu cruzar o Atlântico sem ter ao lado o seu cobertor azul.

Comentários

Leandro disse…
Treinadores só levam seus "cobertores azuis" para os times e seleções se existir uma coisa chamada "treinadorismo". Que vem a ser entregar todo o poder de decisão ao treinador. Sem questionar, sem vetar, sem nada. É erro dos clubes e das confederações fazer isso. Tem é que tirar o cobertor dos caras para ver se aprendem a tirintar com o frio!!!
Anônimo disse…
Acho isso característico, pessoal e, como técnico (internacional) de volleyball, tmbm tenho meus "vacilos". Mas nao me policio, nem qero. Meu trabalho nao me permite fricotes, e todos (trabalhadores)os temos.
Inté,
Mg